10 junho 2008

To indo embora...

Olá amigos!!
Sei que sou uma blogueira ausente, mas essa vida de arquiteta não me permite mais tantas produções literárias como antigamente, no entanto nos leva aos lugares mais inesperados...
Isso mesmo, vocês não leram errado, estou indo embora... Nesse domingo, 15/06 pego o avião para Brasília, com a cara e a coragem trabalhar para o FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação). Prometo mandar notícias e estar sempre que possível no msn para os que se interessarem... Sentirei muita falta de todos mas acredito ser uma ótima oportunidade, e não tinha como recusar...
Assim que eu conseguir bater um papo com o Lula eu prometo que conto tudo com detalhes... enquanto isso não acontece eu conto como estou me virando por lá...
Beijos a todos e até qualquer hora!!

Dando uma leve alteradinha na música do Lenine...

"Diga aí... Diga lá! Você já foi à Brasília nega? Não?! Então vá!!!"

02 março 2008

Baseado em fatos reais...

Todos os dias Celina levantava às 5:00 com a mãe e os dois irmãos. Tomava um café ralo com pão amanhecido que ela molhava no café para amolecer. Em meia hora os três filhos estariam prontos para mais um dia ao lado da mãe que catava papel pela cidade para sustentar a família, já que o marido foi embora e não voltou mais. Celina ainda tinha esperanças de que o pai voltasse, ele havia dito naquele dia que só ia dar uma saidinha. Ela só não entendeu por que ele precisava de uma mala para dar só uma saidinha.
O trajeto era sempre o mesmo, cerca de dois quilômetros às margens de uma avenida movimentada, com carros buzinando o tempo todo até o bairro vizinho. Lá as pessoas deixavam separado sacos de papel e plástico para a família. Algumas vezes a coleta do dia enchia o carrinho. Em outras, quase não era suficiente para o pão. De todas as casas pela quais passavam, havia uma preferida para Celina. Uma casa grande, com um muro alto e um imponente portão de ferro. Mas o que encantava a menina era o que existia atrás do portão. Todos os dias quando a empregada abria o portão para entregar os materiais para a mãe, Celina via uma beradinha da piscina que reluzia azul em meio ao quintal. Seus olhos brilhavam ao imaginar a imensidão de água cristalina que haveria ali. Por que a água do rio que passava ao lado de sua casa não era tão azul como aquela? Não era tudo a mesma água?
Naquele dia, quando estavam chegando perto do portão de ferro o coração de Celina começou a bater forte. Alguns instantes após tocarem a campainha a empregada abriu o portão trazendo uma grande sacola de papéis. Mas como havia-se feito uma faxina no escritório ainda havia outra sacola a buscar. Foi quando, inspirada pelo azul da água, uma cabecinha surgiu na fresta do portão que a empregada tinha deixado aberto e disse baixinho “Posso passar a mão na piscina?” A empregada receosa observou se os patrões não estavam por perto e acenou para a menina,” Mas só até que eu vá buscar o outro pacote ok?!”. Celina se aproximou da borda cuidadosamente, e se abaixou para que pudesse tocar a água cristalina.
Era fria... parecia penetrar em sua pele. Fazia ondas com os dedos para vê-las correrem através da superfície da água calma, imaginando como deveria ser maravilhoso banhar-se naquela imensidão cristalina.
Celina! A mãe chama do portão, com o outro pacote de papeis na mão. A menina corre para fora, sorrindo para a empregada e ao passar pelo portão dá uma última olhadinha para trás para que não se esqueça da exata tonalidade do azul daquela água.
Fechando o portão a empregada sorri ao ver a menina que segue saltitando ao lado de um carrinho lotado de papelão.

23 fevereiro 2008

Romântica

Nunca fui fã de novelas. Cinema é minha paixão. Mas admito que ultimamente os seriados americanos têm tomado muito tempo de minha vida. Há alguns dias me dei conta de que estava acompanhando sagradamente nove seriados diferentes, sendo que desses oito se tratavam de investigação criminal, serial killers, eventos sobrenaturais. Entretanto, para confirmar a regra, um dos nove é uma historinha besta, com aquela romance “água com açúcar” que quem me conhece bem sabe que eu detesto. Entretanto me peguei torcendo pelo casal protagonista a ponto de ficar morrendo de raiva quando o mocinho pede outra menina em casamento, e não a mocinha da história. Não que a noiva dele seja má, pelo contrário, ela é ótima, muito bonita, mas a torcida é sempre da mocinha do seriado, claro! Se nem nos seriados de TV os mocinhos podem ficar juntos o que eu faço com a minha esperança de um final feliz? Já me chamaram de romântica, até então nunca tinha me dado conta disso, acho que prefiro esconder essa “fraqueza”, mas que os mocinhos têm que ficar junto no final, isso têm...

06 dezembro 2007


Obrigada...

25 outubro 2007

Vazio

Hoje tudo se foi

Hoje senti o vazio

Hoje encontrei a solidão

Hoje descobri meu maior medo

22 outubro 2007

Expectativas

Chega... Vou embora... Boa sorte pra você, mas eu cansei de viver de expectativas.
Chega de desencontros, de desculpas e ilusões. Vou seguir meu caminho, pois sei que ao menos ele terá menos dor do que enquanto sigo ao seu lado.
Não espere mais compreensão, boas ações, me tire desse pedestal. Nunca fiz questão de ser uma pessoa boa. Não se engane...
Cansei de esperar por sorrisos, por um pouco de atenção, pelo seu amor. O meu amor cansou.
E tudo o que você me ofereceu foram falsas esperanças somadas a abraços sem nenhum significado.
Eu sei, será difícil, mas quantas pessoas já perdi e ainda estou aqui. Leve em conta que ao menos eu nunca tive você. Talvez isso facilite as coisas.
Me deixe com minhas ilusões pois ao menos elas são mais reais que os seus beijos...


31 agosto 2007

Sinto falta dos olhares apaixonados que você nunca lançou sobre mim.

23 agosto 2007

Tive medo do escuro;
Tive medo da morte;
Hoje temo apenas esse vazio
que fica quando você vai embora...

29 maio 2007

Dos Três Mal Amados

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato
O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço
O amor comeu meus cartões de visita,
O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome
O amor comeu minhas roupas, meus lenços e minhas camisas,
O amor comeu metros e metros de gravatas
O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus
O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos
O amor comeu minha paz e minha guerra, meu dia e minha noite, meu inverno e meu verão
Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

João Cabral de Melo Neto

13 maio 2007

Surpresa

Desceu do metrô carregando sua bolsa e uma pequena sacola colorida. Tinha um doce brilho no olhar. Andava despreocupada em meio à multidão apressada que entrava e saía dos trens lotados. Ao sair da estação deu mais uma volta no cachecol e vestiu o par de luvas que trazia no bolso do casaco de lã vermelho que usava. Uma garoa fina caía, mas hoje nada estragaria sua alegria.

No caminho de casa comprou algumas flores e os ingredientes daquela macarronada que adorava. Achou que combinariam perfeitamente com a noite.

Ao chegar em casa deixou a sacola sobre o balcão e foi preparar o jantar para o marido que logo chegaria. Além do prato preferido preparou também aquele manjar de baunilha que tinha um delicioso gosto de infância.

Ao chegar em casa o marido espantou ao perceber a porcelana de festa posta à mesa com o bom gosto de costume e um vaso de flores sobre a mesa da sala. Ao questionar a esposa sobre o motivo de tanta produção, recebeu como resposta um misterioso “Por que hoje é um dia especial, meu Amor...”.

Preferiu não insistir, pois sabia, depois de seis anos de casamento, que a esposa detestava quando insistia em descobrir suas surpresas. “Afinal, se você descobrir não será mais surpresa...” era o que sempre dizia.

O clima durante o jantar foi animado, conversaram sobre amenidades do dia-a-dia, mas nada que desse ao marido uma pista do que realmente estava acontecendo.

A pós a sobremesa, a esposa se levanta e busca um pequeno embrulho de presente, que esteve o tempo todo guardado dentro da sacola colorida e o entrega ao marido.

Surpreso, ele abre cuidadosamente o laço de fita. Finalmente abre um grande sorriso ao observar que dentro da caixinha, protegidos por um delicado papel de seda estavam dois pequenos sapatinhos de bebê.

05 maio 2007

Experimental...


Sente...
O sabor de minha pele...
Rele...
Os seus dedos em meu corpo...
Morto...
De vontade do seu beijo...
Vejo...
Tu saindo pela porta...
Volta...
O seu toque sutilmente...
Mente...
Que me ama loucamente...

03 maio 2007

Fuga

Dirigia seu carro como nunca antes. Avançava os sinais sem olhar para os lados. Apenas dirigia. Só tinha olhos para o carro que a seguia de perto, sem hesitar.

Corria como louca. Acelerador no máximo. Ergueu o volume do rádio para não ouvir o som da buzina que soava incansável. Já era tarde da noite, mas não sentia nenhum sinal de cansaço. Sabia que poderia dirigir a noite toda se fosse preciso.

A cidade vazia colaborava com a perseguição. O carro de trás dava sinais de luz, mas ganhava como resposta cada vez mais velocidade. Ela só queria chegar em casa.

Os carros ficam lado a lado em uma avenida. O motorista que a seguia faz sinais para que espere. Ela não pára. Desconta toda a sua raiva no acelerador.

Já consegue ver seu prédio no final da rua. Logo estaria segura e não precisaria ver aquele rosto nunca mais.

Quando chegava no portão foi fechada pelo carro que a perseguia, impedindo assim sua entrada no estacionamento. Por pouco não bate.

O motorista sai do carro, abre sua porta, que após o fervor da discussão ela havia esquecido de travar.

Ela sai do carro e o observa com fúria por alguns segundos e inesperadamente lhe dá um ardido tapa no rosto. A ele só resta revidar. Segura-a firmemente pelos braços, empurrando-a contra o carro e a beija com o mesmo ardor do tapa que acabou de levar.

Na manhã seguinte dois molhos de chave repousam na cabeceira de sua cama...

23 abril 2007

Chocolate

Ele era caixa de banco. Vivia para ouvir reclamações o dia todo, como se fosse o responsável pelos problemas financeiros do mundo, ou se não fosse, deveria ser no mínimo capaz de resolvê-los, afinal, ele era a pessoa que estava atrás do balcão.

Olhava insistentemente para o relógio, na esperança de que o tempo passasse mais rápido, para poder descansar durante o intervalo de almoço.

Costumava almoçar em um pequeno restaurante por quilo que ficava logo ali, atravessando a praça. Não que a comida fosse ótima, mas já havia se acostumado com as mesmas pessoas que comiam apressadas todos os dias. Até já se atrevia a cumprimentar algumas delas com um “Olá” ou “Como vai?!”.

Após o almoço, passava na banca de jornais, dava uma espiada nas notícias e comprava um chocolate. Atravessava a praça degustando seu minuto de paraíso, desviando das crianças que corriam com seus uniformes. Prometia a si mesmo que no amanhã não o comeria, pois precisava adquirir hábitos mais saudáveis.

Foi em um desses dias que, comendo seu chocolate, ele teve a visão do ser mais deslumbrante da Terra. Ela era linda! Não como as estrelas da tv. Tinha uma beleza singela, mas incomparável. Tinha os cabelos revoltos presos com um pincel e uma mecha teimosa de franja que insistia em cair sobre os olhos, atrapalhando sua leitura aparentemente interessantíssima. Tudo parecia desaparecer diante de tanta beleza. Até esqueceu o chocolate que já derretia na mão. Queria ficar ali para sempre, apenas observando a moça sentada no banco da praça.

Já atrasado, retornou ao trabalho. Nunca as reclamações lhe soaram tão melodiosas. Ele nem mesmo se importava com as velhinhas que se atrapalhavam ao digitar as inúmeras senhas do cartão.

Nos dias seguintes almoçava apressado para poder observar por mais alguns segundos a moça com o pincel no cabelo. Talvez fosse professora, ou talvez uma artista. Artista era algo que combinava com sua beleza.

Passou a sentar-se no banco em frente ao dela todos os dias. Pedia para que o chocolate, que parecia muito mais gostoso, fosse eterno para não ter que sair mais dali. Nesse dia decidiu que a cumprimentaria na partida. Respirou fundo e, ao perceber que ela ergueu os olhos ao vê-lo levantar, soltou um quase mudo “tchau...”. Ela sorriu. Achou que ia morrer naquele instante. Era o sorriso mais doce que já recebeu, talvez o único do dia.

No dia seguinte, ao sair da agência, não foi almoçar. Muito menos se lembrou da guloseima de costume. Colheu uma margarida do canteiro da praça e caminhava segurando-a com as mãos trêmulas.

Sentou-se no banco e esperou até que ela chegasse. Foi quando ele a avistou. Trazia os cabelos soltos. Mas dessa vez não se sentou no banco, nem mesmo tinha o livro nas mãos. Ela caminhava em sua direção como se flutuasse. Atônito se levantou e observou a moça que vinha.

Quando estavam frente a frente, sem saber o que fazer levantou a pequena margarida, que nessa altura já estava murcha com o suor de suas mãos. Ela a pegou, cuidadosamente colocou-a nos cabelos e lhe deu um doce beijo. Sorriu, abaixou os olhos e se foi. Ele nem ao menos pode ouvir sua voz.

Desse dia em diante, a jovem nunca mais voltou à praça e os chocolates nunca mais tiveram o mesmo sabor, comparados ao doce gosto dos seus lábios...

15 abril 2007

Auto-retrato

Sentada no balcão de um bar ela pede mais uma dose na tentativa de afastar os medos, amenizar a insegurança talvez. O álcool lhe causa uma agradável sensação de poder. O que mais precisa nessa hora é um pouco mais de confiança. As roupas ousadas e as unhas vermelhas não passam de uma tentativa frustrada de transgredir suas regras pessoais, em busca de algo que não é...

Acende mais um cigarro. Promete a si mesma que só fuma em momentos de tensão, mas já pensa em comprar mais um maço. Pensou que havia nascido para ser arquiteta, mas em muitas das vezes chega a conclusão de que só continua com tudo isso por que é teimosa demais para largar tudo agora, e já que começou, que ao menos seja bem feito.

Termina o copo em um só gole. Ela o fita de relance. Seus olhos apenas pedem para sair dali. Ele levanta, paga a conta. Suas mãos se tocam. Mas nenhuma palavra é dita.

Ele pára o carro. A observa. Ela não se despede. Apenas sai. Talvez isso seja um adeus. Sem despedidas, sem um beijo. Crueldade? Não... Autopreservação, eu diria.

Ela entra no apartamento escuro. Repara que se apaga a última luz do prédio em frente ao seu. Todos se foram.

Joga um pouco de água no rosto e se observa no espelho. Se acha bonita. Não por ser um exemplo de beleza, mas por uma tentativa de recuperar a já perdida auto-estima. Os olhos borrados de maquiagem acentuam o olhar triste, quase melancólico, o olhar de quem nunca amou.

Ao se deitar logo pega no sono. O efeito da bebida ajuda a curar a insônia. Dorme como quem não tem culpa. Sem se dar conta de que no outro dia, mais uma vez, vai se arrepender de tudo que não fez. Sem saber que, no outro dia voltarei a ser somente eu.

07 abril 2007

Refrão de um Bolero

Eu que falei: "nem pensar..."
Agora me arrependo, roendo as unhas
Frágeis testemunhas
De um crime sem perdão

Mas eu falei sem pensar
Coração na mão, como refrão de um bolero
Eu fui sincero
Como não se pode ser

Um erro assim tão vulgar
Nos persegue a noite inteira
E, quando acaba a bebedeira,
Ele consegue nos achar

Num bar
Com um vinho barato
Um cigarro no cinzeiro,
E uma cara embriagada no espelho do banheiro

Ana... Teus lábios são labirintos... Ana
Que atraem os meus instintos mais sacanas
O teu olhar sempre distante sempre me engana

Ana... Teus lábios são labirintos... Ana
Eu sigo a tua pista todo o dia da semana
Eu entro sempre na tua dança de cigana

Ana... Teus lábios são labirintos... Ana
Que atraem os meus instintos mais sacanas
E o teu olhar sempre distante sempre me engana
E eu sigo a tua pista todo o dia da semana

O que eu falei foi sem pensar...
Foi sem pensar.
Engenheiros do Hawaii

*ps. Pessoalmente não sou muito a favor de postar letras de música... mas essa realmente mexe comigo...

05 abril 2007

Mosaico

Ela atirou um copo na parede
e chorou, juntando os cacos
de um coração despedaçado...


04 abril 2007

Luz de velas

Abriu a porta para o rapaz da floricultura que trazia nas mãos um belo buquê de flores do campo. Nunca gostou de rosas. Agradeceu com uma pequena gorjeta e fechou a porta lendo o cartão escrito com uma caligrafia quadrada inconfundível: “Te encontro no jantar”.
Preparou seu prato preferido. Colocou uma garrafa de vinho para gelar. Arrumou a mesa com capricho dispondo um par daqueles pratos de porcelana quadrados dos quais não abriu mão quando comprava as louças para o pequeno apartamento que comprou a tanto custo.
Tomou um banho demorado, prendeu os cabelos e colocou aquele vestido preto que só usava em ocasiões especiais. Passou o perfume de orquídeas que estava economizando, pois já estava no fim.
Olhou para a mesa. Algo faltava. Tirou do armário um antigo castiçal que costumava usar nas festas de fim de ano. Parecia perfeito para a ocasião. Deu mais uma olhada no espelho do corredor e decidiu soltar os cabelos. Achava que assim aprecia mais jovem.
Acendeu cuidadosamente as velas e sorriu ao olhar mais uma vez as flores sobre o balcão. Serviu os dois pratos e fingiu surpresa ao encontrar, sob o seu, um pequeno bilhete com um “Eu te amo” escrito com a mesma caligrafia.
Comeu, tomou seu vinho, tudo no mais profundo silêncio, que só era quebrado pelo ronronar do gato que insistia em se acarinhar em seus pés.
Ao terminar, sentou-se no sofá bebendo mais uma taça. Intimamente preferia uma xícara de chá, mas havia desistido do hábito há alguns anos cansadas das noites de insônia que lhe causava.
Aos poucos pegou no sono, com o gato aninhado no colo. Quem quer que esperasse nunca chegou.
Na mesinha ao lado repousava um pequeno caderno de telefones, escrito com a mesma caligrafia quadrada, e de dentro dele pendia um ticket da floricultura, pago com seu próprio cartão de crédito.

03 abril 2007

Incertezas

Ela abre de novo seu blog na internet, na esperança de que mesmo depois de um mês da última postagem algum comentário novo surja. Mesmo que seja algum amigo dizendo: “Você não vai atualizar isso aqui não?!” No fundo comentários assim sempre acabam lhe motivando a tentar escrever algo.
Mas nada. Tudo igual. Os mesmos 5 comentários que estavam lá ontem, semana passada, retrasada. Cada vez que abre insistentemente sua página, duas, três vezes ao dia, a sensação de vazio aumenta mais e mais. Por que não escrever algo? É simples. Todo mundo consegue! Mas a página em branco é sempre um problema. Folhas em branco sempre a assustaram. Nunca foi muito boa em dar o primeiro passo, essa coisa do desconhecido não lhe agrada muito. Prefere a segurança da rotina a se aventurar em incertezas. Talvez por isso esteja sozinha.
Faz uma xícara de chá, o amargo parece limpar a alma, ou punir as atitudes incertas que talvez tenha pensado em cometer. Para que se arriscar afinal?
Faz um carinho no cachorro que dorme ao lado da cadeira. Na verdade preferia um gato, mas as coisas nem sempre são como gostariam. Talvez tenha cachorros por que são muito mais previsíveis. Quem sabe um dia tenha um gato.
A folha continua em branco e os mesmos 5 comentários a perturbar. Por que não escrever sobre amenidades?! Costumam dar ibope! Tenta algo sobre pessoas... mas as idéias passam... Escreve uma linha, duas... Não, apaga. É inútil... Pega mais uma xícara de chá, preparada para a insônia que virá. Sabe que mais de duas xícaras são sinônimos de uma noite instável. Por que não a certeza de um sono tranqüilo? Já está se arriscando demais por hoje mocinha...
As idéias não vêm, e quando vêm não passam mais de cinco minutos no papel antes de serem rabiscadas, ou amassadas e atiradas ao cesto de lixo. No fundo não escreve por falta de criatividade, mas por um indesejável instinto de auto-preservação. Talvez tenha medo de demonstrar demais suas fraquezas naquelas poucas linhas.
Amassa mais uma folha de papel... Enche mais uma xícara. Promete que aquela será a última. Tenta escrever sobre si mesma... Talvez isso funcione, pelo menos uma vez. Não. Rabisca as três linhas que havia escrito, apaga a luz e vai se deitar. Afinal, por que insistir nessa teimosia de tentar escrever algo, se é tão mais seguro confiar na presença dos mesmo 5 comentários que já se tornaram rotina. A noite provavelmente será longa. Quem sabe amanhã tente escrever algo sobre essas incertezas.

Ter ou não ter namorado? Eis a questão.

Quem não tem namorado é alguém que tirou férias não remuneradas de si mesmo. Namorado é a mais difícil das conquistas.
Difícil porque namorada de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia.
Mas namorado, mesmo, é muito difícil. Namorado não precisa ser o mais bonito, mas ser aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio e quase desmaia pedindo proteção. A proteção não precisa ser parruda, decidida; ou bandoleira basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição.
Não tem namorada quem não sabe o gosto de chuva, cinema sessão das duas, sanduíche de padaria ou drible no trabalho.
Não tem namorado quem faz pacto de amor apenas com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com a felicidade ainda que rápida, escondida, fugidia ou impossível de durar.
Não tem namorada quem não sabe o valor de mãos dadas; de carinho escondido na hora em que passa o filme; de flor catada no muro e entregue de repente; de poesia lida bem devagar; de gargalhada quando fala junto; de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo alado, tapete mágico ou foguete interplanetário.
Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor, nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele, abobalhados de alegria pela lucidez do amor.
Não tem namorada quem não tem música secreta, quem não dedica livros, quem não recorta artigos; Não tem namorada quem ama sem gostar; quem gosta sem curtir; quem curte sem aprofundar.
Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada, ou meio-dia do dia de sol em plena praia cheia de rivais. Não tem namorado quem ama sem se dedicar; quem namora sem brincar; quem vive cheio de obrigações.
Não tem namorada quem confunde solidão com ficar sozinho e em paz. Não tem namorada quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo.
Se você não tem namorado é porque não descobriu que o amor é alegre e vive pesando duzentos quilos de grilos e medos. Ponha a saia mais leve, aquela de chita e passeie de mãos dadas com o ar.
Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim.
Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela. Ponha intenções de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada.
Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteria.
Se você não tem namorado é porque ainda não enlouqueceu aquele pouquinho necessário a fazer a vida parar e de repente parecer que faz sentido.
ENLOU-CRESÇA.

Carlos Drummond de Andrade

02 março 2007

Formada... e agora?

Depois de cinco anos de noites mal dormidas e um stress incontrolável – os mais próximos que o digam -, finalmente me formei. Agora posso dizer de verdade que sou uma Arquiteta e Urbanista, com direito a diploma e tudo. Digo isso por que quem estuda na Federal sabe o quando o tal do diploma demora pra ficar pronto. O nosso só saiu por causa da nossa Santa Otília – a secretária do departamento – que conseguiu providenciar tudo a tempo.

Depois de muita tensão, calafrios e tremedeira a cerimônia aconteceu exatamente como o previsto, inclusive com discurso tosco do Reitor, que vem querer falar de estética e acessibilidade para uma turma de arquitetura...

Ao contrário do que todos esperavam, eu não chorei fazendo discurso de homenagem aos pais, mas bem que eu me segurei heim...

A felicidade era tanta que o sono só veio altas horas da madrugada, ainda por que o cansaço era maior e os vários copos de chopp que vieram depois da colação também ajudaram um pouco...

Mas o problema é o vazio do dia seguinte... o “E agora???” que não para de vir à cabeça... Por mais que eu esteja fazendo meus bicos... um trabalhinho aqui, outro ali, a sensação permanece... Até quando isso vai durar?

To com a sensação de primeiro dia de aula em colégio novo... tudo é novidade, as pessoas são estranhas... e a insegurança vai querendo tomar conta... Mas como tudo na vida, a gente vai se adaptando... e sei que logo essa insegurança vira confiança e tudo poderá voltar ao normal...

Enquanto isso... a gente curte o baile da formatura... ahuahuahua